O fenômeno El Niño, conhecido por aquecer o clima, está colocando quase 400 cidades brasileiras em alerta máximo contra incêndios. Especialistas recomendam que produtores rurais e moradores do Centro-Oeste redobrem a atenção, mantenham limpos os campos e sigam as orientações do governo para evitar grandes tragédias.
A intensificação do El Niño deve aumentar o risco de grandes incêndios no Centro-Oeste nos próximos meses e exige atenção redobrada dos produtores rurais. Com 399 municípios sob alerta do governo federal, especialistas defendem a antecipação das medidas de prevenção nas propriedades, principalmente durante o período mais seco do ano.
- O fenômeno El Niño está mais forte, o que significa clima mais seco e quente no Brasil.
- Quase 400 cidades no Centro-Oeste estão em alerta máximo contra incêndios.
- O governo federal liberou mais de R$ 800 milhões para prevenção e combate ao fogo.
- Produtores devem manter os aceiros (faixas de terra limpa) bem cuidados.
- Setembro e outubro são os meses mais perigosos para incêndios no Cerrado e na Amazônia.
Alerta máximo no Centro-Oeste
Entre as principais recomendações estão a manutenção de aceiros, o acompanhamento das condições meteorológicas, o respeito aos períodos de proibição do uso do fogo e a proteção de áreas de vegetação nativa.
Ane Alencar, membro da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura e diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), alerta que as condições devem se tornar mais favoráveis à ocorrência de incêndios.
O país entra agora no período em que o risco de grandes incêndios se intensifica, sobretudo no Cerrado e na Amazônia, em razão da fase de seca, característica dos próximos meses, afirma.
O mapeamento apresentado pelo governo federal colocou 399 municípios do Centro-Oeste sob monitoramento especial. Desse total, 23 cidades estão em alerta vermelho, 154 em laranja e 222 em amarelo.
A região reúne áreas de Cerrado, Pantanal e Amazônia, biomas particularmente vulneráveis ao avanço do fogo durante o período seco.
Governo aumenta investimento em prevenção
A preocupação aumenta diante da perspectiva de intensificação do El Niño. Setembro e outubro são apontados como meses de maior atenção para os efeitos do fenômeno.
Para tentar reduzir os impactos, o plano federal de prevenção prevê R$ 337 milhões para ações de prevenção e combate aos incêndios florestais. Outros R$ 527 milhões, provenientes do Fundo Amazônia, serão destinados à aquisição de equipamentos para os Corpos de Bombeiros dos estados das regiões Norte e Centro-Oeste.
Na avaliação de Alencar, o reforço dos investimentos representa um avanço, mas a capacidade de controlar os incêndios também dependerá das condições meteorológicas e da manutenção de políticas públicas de prevenção.
Em 2025, a estação chuvosa foi mais prolongada, o que reduziu a janela favorável para incêndios, explica.
O desafio em 2026, segundo a especialista, será avaliar a capacidade das estruturas criadas nos últimos anos de manter os incêndios sob controle diante de um cenário meteorológico menos favorável.
O que o produtor deve fazer
O produtor rural tem papel importante na estratégia de prevenção, já que grande parte das ignições está associada à ação humana.
Nas propriedades, as medidas passam pelo planejamento de qualquer uso autorizado do fogo, manutenção dos aceiros e atenção às condições meteorológicas antes da realização de atividades com potencial de provocar incêndios.
Isso significa planejar cuidadosamente qualquer uso autorizado do fogo, respeitar períodos de proibição, manter aceiros e infraestrutura adequada, acompanhar as condições meteorológicas antes de qualquer operação de risco, proteger nascentes, matas ciliares e reservas legais e cuidar para que áreas especialmente vulneráveis fiquem longe de fontes de ignição, destaca Alencar.
A recuperação de áreas degradadas também é apontada como ferramenta de prevenção. Segundo a especialista, a conservação da vegetação contribui para tornar a paisagem mais resistente ao avanço das chamas.
A recuperação de áreas degradadas também faz parte dessa agenda. Restaurar áreas degradadas e proteger a vegetação nativa aumentam a resiliência da paisagem e reduzem o risco para a própria atividade produtiva, afirma.
Novas políticas contra o fogo
Parte da estrutura atualmente utilizada pelo país começou a ser construída em 2024, com a instituição da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (PNMIF).
A iniciativa busca ampliar a articulação entre órgãos responsáveis pela prevenção e pelo combate aos incêndios. Para Alencar, no entanto, a efetividade da política dependerá de sua expansão para estados e municípios.
A política começou a ser implementada recentemente, e seus resultados dependem de ganhar escala nos estados e municípios, com orçamento, equipes e planos territoriais, afirma.
Segundo a especialista, transformar os avanços recentes em políticas permanentes será fundamental para evitar que eventuais reduções nos incêndios dependam apenas de condições climáticas mais favoráveis.
Para isso, precisamos consolidar a PNMIF, garantir recursos permanentes para prevenção e brigadas, ampliar os Planos de Manejo Integrado do Fogo e levar essa capacidade para estados, municípios e propriedades rurais, acrescenta.
Prevenção é a chave
Outra estratégia considerada importante é identificar antecipadamente as áreas mais vulneráveis aos incêndios.
A proposta é mapear, antes do período crítico da seca, os territórios com maior probabilidade de registrar grandes ocorrências e direcionar equipes, equipamentos e recursos preventivamente, em vez de concentrar os esforços apenas no combate às chamas.
A redução do desmatamento e da degradação das florestas também integra essa estratégia, já que áreas degradadas ficam mais vulneráveis a novos episódios de fogo.
Na Amazônia, uma floresta degradada, fragmentada e que já queimou anteriormente fica muito mais vulnerável a novos incêndios, conclui Alencar.




